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Sinais ( 2)

No outro dia, de relance ( por isso não me lembro  qual), vi na capa de uma revista qualquer coisa como as crianças ditadoras ou os novos pequenos ditadores. Associei de imediato aos cães que, à trela,  puxam os trôpegos donos numa  espécie  de neo-ski urbano. Crianças ditadoras é uma contradição nos seus termos. De onde vieram elas? De Marte? Terão lido, ainda  de chupeta, o grande educador fascista Gentile e  a sua tese de que a educação é  o processo da revelação do Absoluto? Não me cheira.
Talvez ir pelos adultos. Se vivemos numa cultura narcisista em que pomos 50 fotografias dos nossos filhos no facebook por mês, em que gostamos tanto de nós que os nossos filhos só podem ser os mais imarescíveis seres  de luz, em que rejeitamos  o envelhecimento e, por consequência, idolatramos a juventude, talvez haja aí uma aberta.



Drogas ( 3)

Petitpas Taylor disse ontem  aos jornalistas que legalização da canabis recreacional não é uma data, é um processo.  Tem a senhora toda a razão. Já istothey suggest the drug is less harmful than tobacco and alcoholé um disparate pegado. Este tipo de  abordagem vai fazer muito mal a processos como o canadiano.
Os opiáceos, a canabis, a cocaína não fazem  bem ao corpinho. Alcalóides e/ou semi-sínteses  da coca e do ópio  têm utilização terapêutica  desde o século XIX ( no caso da morfina), mas isso é outra conversa. O ponto aqui é outro: não se reverte o processo proibionista criando uma ficção.
As drogas são más como o trânsito é mau, os conservantes são maus ( alguns), a prescrição maniáca de antidepressivos é má, a vida é , de uma  forma geral, lixada; com bons intervalos quando o Jonas marca golos ou a cama corre bem. A reversão do projecto proibicionista, tintadíssimo de uma visão imperial , colonial e religiosa, passa por assumir as intoxicações como um affair de adultos. É um ass…

Drogas ( 2)

A  ideia da escalada é velha: começas a rodar uns charutos e acabas nas chinesas, ou seja, vais do hax à heroína enquanto o diabo esfrega  o olho. O que é curioso é que a ideia não é errada quando analisamos, por exempo,  o perfil de um toxicodepente da velha guarda. O que é curioso é que  a ideia está errada quando aplicada à população em geral.
Quando trabalhei no terreno (89-95), e quase sempre numa valência pesada ( a unidade de desintoxicação do CAT de Coimbra), era raro  o heroínomano que não tivesse começado pela canabis. Isto nada tem de excepcional e é até intuitivo. Na minha geração, todos os que experimentaram drogas ilegais usaram canabis: ninguém começava na braquinha ou nas chinesas , muito menos a dar na veia.  Pois é, o problema  da teoria da  escalada é que não explica por que motivo tanta  gente que rodou uns charutos nunca sequer se  aproximou das outras drogas. Temos então uma escalada com direito de admissão.
Como dizia o Freud tardio ( já curado das teorias mira…

Drogas ( 1)

A tendência para a legalização da produção e comércio das actuais drogas ilegais  era inevitável. Convém recordar sempre que o edifício proibicionista só ficou concluído em 1961. A partir daí, a hipocrisia americana assumiu-se  de vez:
William Casey dirige, nos anos 80, uma das  maiores estações da CIA. Em 1982, a heroína afegã e paquistanesa já cobre as necessidades de 60% do americanos. O Afeganistão já produz, em 1983, cerca de 575 toneladas /ano. Greenleaf e Wilson explicaram à administração Reagan que "se  dessem  à guerrilha afegã um décimo da ajuda que os soviéticos deram aos norte-vietnamitas,  the Russians would really have either hands full". Em 1983, pôs-se o problema da Emenda Rodino, que interditava a ajuda a países que não tomassem medidas adequadas para controlar a produção e exportação de narcóticos ( Mc Coy, 2003).  O presidente da House of Foreign Affairs Comittee, Steven Solarz, quis  saber como era possível ajudar quem enchia as ruas americanas…

Sinais ( 1)

Os telefones convencionais  não alteraram uma cultura da escrita. Em 1982, Walter Ong escrevia que  a escrita dava  ao  grafolect ( uma escrita estandardizada, como o inglês) um poder  muito maior do que qualquer dialecto puramente oral. Pois, mas também vaticinava que a palavra falada resistia, porque toda  a escrita tinha de se submeter  ao mundo do som. 
Os telemóveis são particularmente interesantes no fim das relações amorosas. Quantas vezes  uma mulher me diz : Ele acabou comigo por SMS.  A bem dizer, a tecnologia não mudou nada de essencial  no mundo das rupturas amorosas.A queixa da mulher seria  a mesma se ele tivesse chegado à mesa do café e tivesse vocalizado está tudo acabado. Então o que mudou? Talvez o que muda sempre com a tecnologia: a velocidade do processo.
Isto levanta o problema de saber o impacto da velocidade na comunicação e, no caso analisado, na ordem amorosa. A velocidade implica a solidão do actor comunicacional. Fica o único  responsável pela duração da in…

Projecto canadiano: notas adicionais

Entendamo-nos sobre factos, as opiniões ficam para mais tarde:
1) O edifício proibicionista  foi obra  exclusiva dos EUA e  não foi um projecto isolado.  Todas as principais conferências  e convenções internacionais foram  dominadas pela vontade americana de  banir a produção e comércio legal das drogas.  Quando o projecto  filipino arranca, estamos já em pleno caldo preparatório  do Volstead Act ( Lei Seca). Muitos estados went dry bem antes da entrada em vigor da lei federal. A aplicação às  drogas foi uma peça ideológica e religiosa do mesmo tabuleiro.
2)  A Lei Seca foi um falhanço estrondoso.  Factos: a) foi revogada, b) nunca mais foi ensaiada d) lançou as bases operacionais  do tráfico de heroína  nos EUA ( ver link supra).
3) A proibição, ou melhor, o efeito esperado do projecto americano, nunca funcionou.  Foi uma ideia que falhou. O narcotráfico  e o consumo explodiram depois da Single Convention  de 1961. Com a canabis  é o mesmo.