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O partido Zelig

Deixando de lado  as exaltações moraleiras ( que acabaram no ridículo, como é obrigatório), a nova direcção  do PSD   apresenta uma opção muito interessante: fazer tudo igual ao PS, mas melhor. Temos assim que o partido vai ser mais solidário com os mais pobres, mais generoso com os pensionistas, mais  auxiliador dos estudantes; também fará mais investimento público, reduzirá mais défice, agilizará mais a burocracia, aliviará mais a carga fiscal, reformará melhor a justiça.
Esta opção muito interessante depara-se, no entanto, com um pequeno obstáculo: convencer os eleitores de que vai fazer tudo o que o PS faz, mas melhor. Para tal, socorreu-se de gente com ideias  frescas como  Ângelo Correia, Arlindo de Carvalho, Álvaro Amaro, Silva Peneda, Barbosa de Melo ( filho).
Caberá aos eleitores depositar nesta equipa, descomprometida com fracassos anteriores, a confiança necessária. Os primeiros sinais são bons: muita gente do PS, até da ala esquerda do partido, tem elogiado  e defendido a…

Sinais ( 14)

A cozinha é uma actividade anarquista e por isso recupera raízes tão antigas. Não é bem uma organização nem uma sociedade, mas uma ideia anarquista. Mesmo quando cozinhamos só para nós, pensamos : fulano ou beltrana haveria de gostar. As mais das vezes cozinha-se para partilhar, para oferecer, recusando a ideia de posse. A comida  só existe para ser repartida. Mauss sabia isto tudo. Até porque as tais  raízes  são colectivas  e estranhas à ideia de lucro. Claro que, como tudo o resto, a cozinha soçobrou ao apetite comercial e ao abastardamento dos géneros.
Da indústria alimentar de massas ( as humanas...)  à  estética pornomolecular , pode sobrar pouco para a militância anarquista, mas sobra alguma coisa.Escolher nos mercados tradicionais  as pequenas vendas das velhotas,  ignorando  as bancas compostinhas, é um passo. As trocas envolvem dinheiro, é verdade, mas cinco euros trazem tomates, ovos sujos, coentros, cebolas novas terrosas e ainda sobra. Outro passo pode ser remar contra a…

Sinais ( 13)

Um dos melhores recrutadores do NKVD viveu , nos anos 30, em Lawn Road, Hamsptead,  ao lado da casa onde vivia  Agatha Christie.  Segundo Hastings, Arnold Deutsch, de seu nome, foi o mentor inicial do Cambridge Five, que incluiu  famosos como Philby ou Blunt. A realidade nas barbas da imaginativa  Agatha  Christie. 
As fake news são uma brincadeira  de crianças ao pé dos elegantes e educadíssimos meninos ingleses que se converteram ao comunismo  depois das purgas assassinas de Estaline. Dizia  um deles : tínhamos de inventar  um paraíso qualquer nesta terra. Daí o assunto de hoje: a necessidade de acreditar, como na pastelada dos Ficheiros Secretos.
O homem das teorias da motivação, Maslow, não a  inclui no lote, mas a necessidade de acreditar é  quase tão velha como a espécie humana. A teknai só lhe forneceu mais e melhores meios.

Tachos, panelas e nostalgia ( 2)

Sobre os feijões, escrevia  mestre Aquilino:  de todas as cores  e matizes, a  ponto de vistos em mescla numa teiga poderem imitar  as gemas de vária espécie, com que se há-de espaldar  a orelheira  do cevado  e a couve troncha ?  Em quantas famíias urbanas se come,  hoje, com regra, essa espécie?  Nos restaurantes é a saladinha de feijão frade com atum de conserva e já vais daqui. Abundantes são as feijoadas, é certo, as mais das vezes todas iguais, com chouriço insalubre  e piano de porco industrial. Nas casas urbanas, como dizia, é um deserto igual. Dêem à família uma sopa  de feijão com todos e ela manda-vos o jantar pela janela. Couve segada miúda, feijão vermelho, caldo  engrossado de cebola  e cenoura, um nabito à coca, umas talhadas de entremeada salgada.  Nem vocês têm tempo para tal preparo. Uma sopa destas precisa de muito minuto e pouco lume. Só assim os aromas e os sabores se mesclam e partilham com o caldo a benção generosa. Aqui que ninguém me ouve, é com caras de baca…

Tachos, panelas e nostalgia ( 1)

No no período em fui cronista na revista Ler, fiz uma série  aproveitando a tirada do Eça: somos o que comemos. Vou agora colocar aqui no blogue outras notas, noutro sentido. O foco ( não exclusivo)  vai ser na mesa de casa. Nos restaurantes  já não se pode fechar  o jantar com o belo  fumo, mas os cães  podem entrar. Lugares estranhos.
Uma das batalhas perdidas é a da simplicidade. Se  disser  à cria mais nova, adolescente,  que o almoço é um prato de grelos ( de nabo) e batatas caseiras ( das pequenas bancas do mercado geridas por matusaléns femininas sorridentes)  regado com azeite de lei ( de azeitonas que não esperaram quinze dias para ir à prensa e por isso não acidulam o suco), ela não acredita. A simplicidade tem de acasalar com a qualidade, claro. Nos supermercados vendem-se grelos que sabem  a a fundo de copo de cerveja da véspera. Ainda assim, isso não ofusca o essencial: por muito bons que sejam os grelos  e as batatas ( e o azeite), se não há  batatas fritas não há mundo…

Catequese portuguesa ( 2)

Sentia-se um bocadito culpada por não ter podido ir no dia certo.Talvez se tivesse feito um esforço. Talvez não. A reunião nunca teria terminado antes das três da tarde. Fosse como fosse,a mãe nunca ligouao dia de anos, dizia que queria era estar com os filhos. Ia estarcoma mãe num sábado maravilhoso de sol. Setentae seis anos feitos e em casa, não num larnem numa casa de repouso. Era uma canseira, a mãeimplicava com a as senhoras.No ultimo anoforam três. E o dinheirão: entre meses pagos de avanço para evitar sarilhos e cumprir a lei e os ordenados delas. Seis dias por semana vinte e quatro horassobre vintee quatro. Hoje era folga da Idália, o almoço ficou feito. Teresa estava pronta. Logo hoje que não lhe apetecia vestir-se. Teria preferido pôr um robe sobrea camisa de dormir e ficar na camavera RTP Memória. Não era saudosismo nem velhice. Os programas que gostava já só passavam no arquivo. O Hermano Saraiva, o Júlio Isidro e outros. Enfim, a filha meteu na cabeça quequeriavir almoçar …