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Terapia ( 3)

Trabalha  numa confeccção, tem um filho pequeno. É ruiva, gorducha e  e sorridente. Conheço a patroa. Chega  a casa às sete  da tarde com tudo por fazer.  Se o marido está no turno da manhã tem ajuda, senão faz tudo sozinha. Às dez da noite está morta. O sábado é para lavar, passar, limpar. Aos domingos recupera  o sono. Sobra-lhe  a tarde. Vão passear a prestações. Ganha num mês o que o campeão dos  socialistas gastava num jantar. Saúde mental é um eufemismo para morte lenta. Vive-se a sertralina.

Terapia ( 2)

Os mais difíceis são os cachorros abandonados.  Um pai mau, um marido  egoísta, um patrão negligente. Choram baba e ranho, normal, o problema é que têm uma carapaça. Estão convencidos de que  uma injustiça  mortal se abateu sobre eles. A vida que vão vivendo confirma a certeza. É um ciclo vicioso. O trabalho é de dentista. Tratamento de canal moroso, restauração frágil. São os mais difíceis porque  resistem à terapia. Habituaram-se à incompreensão do mundo, não sabem viver sem ela.

Terapia ( 1)

Um  teste  da empatia que costumo fazer: conseguia sentar-me à mesa  do café cinco minutos com esta pessoa? Com muitas sim, com algumas nem cinco segundos.
O psicoterapeuta não se queixa. Se as putas conseguem, não sou mais do que elas.

A batalha de Montecatini

Dino  começou a fazer sucesso na faculdade. Num tempo de esgotamento das dicotomias, recusava o capitalismo, o socialismo, o liberalismo, o fascismo e o comunismo.  Comprou um livrinho do Reich, leu-o e assumiu o sexualismo. Dino abominava o masturbacionismo. O tempo foi passando. Em tertúlias, blogues ( nesse tempo ainda não havia o twitter), seminários, conferências com convidados de alto-lá-com-ele, Dino explanava.

Todos os problemas do mundo começam na tensão sexual, explicava. A quarentona  mais apagada, a adolescente mais  insegura, o homem mais neurótico , todos podiam ser saudáveis se  praticassem o sexo sem restrições com todos.  A luta tinha de ser travada nos elevadores, nos McDonald,  nos semáforos. Abaixo as grilhetas  do registo civil ou o tabu da diferença de idades. O sexo permanente, incansável,  metódico, era  a única forma de progresso da humanidade no caminho da paz e da redenção. Desprezava os movimentos  hippie e os festivais  rock e da igreja católica: eram redu…

A mão e o chicote

Fazer uma razia nos principais  postos  da administração  com o exército e a polícia  a guardar as costas, lamento, mas não me cheira a renovação nenhuma. Excepto, claro, a da mão que segura  o chicote. É um clássico das alterações nominativas do poder, não da mudança  do regime.
Um apoiante fervoroso  de João Lourenço escrevia, em Junho ultimo,  isto :
Perder, perder, perder, são as vozes que definem a oposição angolana, todavia, com vista a afugentarem – se do cheiro da vergonha que da derrota advém, fazem da teoria da conspiração o veículo capital para vender inverdade à gente menos esclarecida sobre o pleito eleitoral angolano.
Agora escreve isto:
 A chama do progresso que o Dr João Lourenço tem por acender, continuará acesa sob sucessões de gerações.