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Canabis e guerra colonial

Aqui:
"Do pouco que os seus consumidores estão dispostos a falar,24 pode dizer-se que a canábis era usada na guerra de África como uma forma de ajudar a relaxar, “espantar o medo”, aliviar a ansiedade e escapar à angústia (Vardasca 2010) – que naquele contexto, de acordo com os testemunhos, assumiam uma dimensão colossal. Normalmente em associação com as bebidas alcoólicas, o consumo de canábis tanto podia ser feito em pequenos grupos como de forma isolada. Tendia a ser discreto mas não se tratava de algo propriamente secreto e / ou algo que, por si só, desse origem a castigos disciplinares".
Comparem com o álcool:
 “Outro problema que cá temos é o das quantidades astronómicas de cerveja que estes tipos bebem. Uma loucura! Muitos deles, quando chegam à cantina, em vez de pedirem uma cerveja, pedem meia grade! […] O seu tranquilizante é o álcool, é com ele que se sentem mais animados, é ele que lhes tira do pensamento os problemas […]. Devo tirar-lhes a bebida? Dev…

D. Francisco

Vi eu um dia a morte andar folgando por um campo de vivos  que  a não viam: os velhos, sem saber o que faziam, a cada passo nela ia topando. na mocidade os moços confiando, ignorantes da morte , a não temiam. Todos cegos, nenhuns se lhe desviam; ela a todos co dedo os vai contando.

 D. Francisco Manuel  de Melo, se fôssemos  ingleses ou franceses seria uma figura popular. Em filmes, livros, currículos escolares. Larger than life, preso pelos Filipes, preso pelos restauradores ( Sade também foi preso por dois regimes), exilado em Londres  e Paris, degredado para África. Depois, um estilo fínissino, variado, entre a poesia, a prosa, a memorabilia, a História etc.
O pedaço  acima transcrito é a abertura  de Apólogo da Morte ( in As segundas três musas). É  a morte que ele vai encontrando e, quando a morte  finalmente lhe dispara e erra, desafia-a. A morte responde-lhe:
Tal vai de guerra! Se vós todos  andais comigo cegos, que esperais que convosco ande advertida?

PSD ( 14)

A propósito desta  chamada de atenção de António Costa  ( o jornalista) e na linha de algumas coisas coisas que fui rascunhando nesta série:
Comentei o tuite de AC : os novos são velhos. Não há aqui nada de depreciativo, tão só apontei  a experiência  de muitos anos dos nomes referidos. A percepção de que o momento não é favorável é sábia. Menos  agradável é a possibilidade de aqueles nomes terem receio de avançar por serem colados ao governo de Passos.
O tempo traz a distância necessária, como constatamos hoje, Passos fez o que tinha de ser feito. Mentiu para ganhar as eleições ( um clássico), mas depois foi um bloco de gelo, como previu, numa líquida noite no meu terraço,  o  Nuno Mota Pinto. E  nós  não fomos a Grécia. Digo que constatamos hoje, porque a única diferença entre  a austeridade de Passos e a de Costa  é  a reposição de rendimentos . O SNS, as cadeias, o trabalho precário  ( turismo oblige), muitas coisas  se  mantêm,  apenas  longe da aberturas dos telejornais e com o…

Entre o álcool e a canabis: a questão cultural

A razão pela qual penalizamos a canabis e vendemos álcool sem restrições ( salvo  a da idade) é exclusivamente cultural, como explico aqui e também aqui. Aliás, qualquer estudo comparativo , em qualquer vector epidemiológico, é claro. Por exemplo, na condução:

Cannabis and alcohol acutely impair several driving-related skills in a dose-related fashion, but the effects of cannabis vary more between individuals than they do with alcohol because of tolerance, differences in smoking technique, and different absorptions of Δ9-tetrahydrocannabinol (THC),


Estou disposto a discutir o pressuposto culural, o que  dispenso é a ignorância e a charlatanice disfarçada de ciência.

O tempo irreparável ( 6)

Outra  ilusão encantadora é a  de que temos memória. Tanto não é nossa que a perdemos sem  aviso nas demências, bem como, quando  ainda existe, não nos segue qual podenga fiel.
A memória é um arquivo variado. Tem secções modernas cheias de tecnologia e departamentos húmidos e bolorentos  ao cuidado de um velho  de cahimbo. É por isso que às vezes estamos  bem dispostos e vem-nos uma recordação sombria e amarga. Noutras ocasiões, como diz o aforisma, prega-nos partidas. Noutras ainda, ficamos espantados como recordamos a mesma coisa de forma diferente  ao longo da nossa vida.
A memória é prima direita  do sonho: vive cá em casa, mas tem chave.

O tempo irreparável ( 5)

O sentido de tempo, ou, melhor, de duração, é adquirido quando somos bebés. Constrói-se através do intervalo entre o desejo e a satisfação. É por isso que, a certa altura, o bebé no quarto, ouvindo a mãe na sala a dizer  que já vai, suporta a fralda molhada ou a fome. Isto é consensual , desde os primeiros investigadores  ( Fraisse) da coisa até alguns psicanalistas ( Tustin,  Pollock etc). Dito de outro modo, ganhamos o   sentido de tempo  aprendendo a controlar a frustração.
Para o curioso destas coisas, isto coloca um problema: o que usamos quando sentimos que algo ( por ex, uma relação antiga )  está a acabar? Não desejamos necessariamente  que acabe, mas sentimos  que está a acabar. Ficamos  então frustrados porque a coisa não acaba de vez? Se sim, que mecanismo usamos? 
Talvez isto explique a paralisia emocional em algumas pessoas. Reagimos emocionalmente ao fim da relação ( tristeza, melancolia), mas também aguardamos , mais ou menos tranquilamente, que a coisa termine de vez …